quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Exortação

Sonhei com a minha filha Irina: tinha nascido há poucos dias mas já era um bebê bem gordo e grande que engatinhava pela mesa da cozinha e tentava tocar a a cafeteira Moka, que felizmente já estava fria. Com poucos dias já balbuciava: tinha uma voz grave e, embora mal pudesse diferenciar os pares básicos de fonemas, formava frases, sempre em resposta a alguma coisa que eu tinha feito ou deixado de fazer. Por fim me olhava com a cabeça enorme e os olhos austeros e me exortava: "Se você estivesse prestando atenção, agora já saberia".

Dentes

Pouco depois de tirar o aparelho ortodôntico, uma jovem dormiu sem a contenção e acordou com a mordida desconjuntada: os dentes retorcidos como se por um abridor de lata. Era-lhe quase impossível falar. Tentou usar os dedos para recolocar os dentes no lugar, e eles, os dentes, pareciam voltar a uma posição mais isonômica. A jovem, contudo, fez força demais e acabou quebrando oito dos seus dentes, que se desprenderam de modo indolor da gengiva inferior e da gengiva superior. Os dentes caíram no chão do banheiro. A jovem os recolheu com uma vassourinha, os colocou no bolso da calça de moletom e saiu de casa, numa vila chuvosa de altos pinheiros, à procura de algum dentista que pudesse reimplantar-lhe os dentes. Mas era cedo ainda, umas seis da manhã, e por isso não encontrou pessoa alguma apta a efetuar o reparo dentário.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O Tigre

(“The Tyger”, de William Blake. 1794.)
Tigre tigre, que arde e brilha

Em noite funda, negra trilha

Que olho, eterna maestria

Fez tal terrível simetria?



Que fosso ou limbo estelar

Fundiu em chamas teu olhar?

E com que asas se lançava

O que audaz fogo tomava?


Quem com traço tão perfeito

Fez as fibras do teu peito?

E quando o sangue então correu

Que feros pés e mãos ferveu?


E que martelo, que correia,

Que forno a mente incendeia?

Em que bigorna tanto horror

Bate as medidas do terror?


Quando o cosmo todo espanto

O céu cobriu de lança e pranto

Sorriu ele, ao ver-te inteiro?

Fez-te o mesmo do cordeiro?


Tigre tigre, que arde e brilha

Em noite funda, negra trilha

Que olho ou eterna maestria

Ousou terrível simetria?



segunda-feira, 26 de junho de 2017

Todo animal é um esteta

Um leitor desavisado vai se decepcionar com At the Mountains of Madness. O transtorno não vem do que se encontra, mas das faltas. O leitor regular vai ficar o tempo todo se perguntando "O que ele viu? O que aconteceu? Quem são esses bichão?". Algo está sempre para acontecer. O horror deve vir da percepção crescente de que a Terra talvez seja mais velha, fria, feia e perversa do que as paisagens conhecidas. A Terra tem recantos obscuros que assim permaneceram por milênios simplesmente porque ninguém estava olhando: basta prestar atenção a um objeto para que ele comece a se transformar. O mais grosseiro dos seres humanos ainda é, enquanto baba, peida e arrota, um delicado jardineiro. Todo animal é um esteta.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Plantar é muito bom

Aliás, plantar é muito bom. Não sei no campo, mas em apartamento, assim na sombra e com água potável do lado é uma delícia. Botar mão na terra, encardir a unha que depois vai dar trabalho pra limpar, fazer bolinha de húmus com folha em decomposição, regar muda, transplantar muda, salvar muda que caiu do berçário, ter delírio e devaneio de autossuficiência e de plantar num hectare todo. O único problema é que, depois, qualquer outro trabalho parece muito desinteressante.

Aprendizado hortelão

Umas perdas com aprendizados na horta da sacada. As beterrabas e as cenouras não foram pra frente. Provavelmente uma combinação de solo inadequado com falta de espaço e de sol. Era só um experimento pra ver se dava alguma coisa com pouco espaço e pouco sol. Não deu. Talvez com muita irrigação e adubação e sol pleno eu pudesse conseguir umas cenourinhas como as que vendem na feira de orgânicos. Os tomates Carolina também iam mal: tinham muito espaço mas pouco sol. Então os transplantei para a jardineira em que eu tentava cultivar minibeterrabas — pequena e estreita para caber no parapeito onde tenho algum sol pela manhã. Vou tentar cultivá-los como rasteiros, mesmo, sem suporte de bambu:



E para uma outra jardineira eu transplantei dois pés de manjericão e, no meio, um pé de tomate. Já é quase uma pizza:


No vaso à esquerda tem cebolinha, à direita tem outro manjericão, que pode ser Gennaro ou alfavaca (minha nomenclatura grosseira pra folha grande e folha pequena). Ainda não dá pra diferenciar pelas folhas nesse tamanho. No berçário eu tinha plantado duas alfavacas e dois Gennaro, mas só de uma das espécies vingaram duas sementes.

Não sei se nada disso vai funcionar. Não sei se é prudente botar um tomate no meio dos manjericão — provavelmente não, mesmo que eu pretenda botar ali um suporte de bambu para as primeiras fases. Eu poderia encontrar essas informações rapidamente numa busca na internet ou num livro especializado, mas estou medindo outras coisas ainda, como irrigação, adubação, quantidade de sol, espaço, etc. Não é um experimento comercial e nem dependo disso pra comer, então não tenho muito a perder além da paciência. Quero ver, por exemplo, se a muda do tomate chega a crescer um pouco mais recebendo um pouco mais de sol, estando no parapeito e não no chão. Tenho uma muda de controle num vaso no chão, que vou continuar irrigando pra depois poder comparar com a muda do parapeito.

Aprender essas coisas na experimentação e sem ler nada nem conversar com quase ninguém nem ter espaço nem muito tempo é trabalhar numa ignorância mais profunda que tentar reinventar a roda; é meio que tentar reinventar a agricultura (que já pode ter sido uma má ideia da primeira vez) com a mentalidade de uma criança de jardim da infância: EU quero mexer na terra, EU quero semear, EU quero ver desse outro jeito, EU EU EU.

A vantagem é que você se sente um pouquinho, bem pouquinho, como um Homem Primitivo, totalmente intrigado por coisas bem simples da natureza, como solo, luz, água, vento, noite, insetos, fungos, calor. É lindo perceber a palpabilidade desse mundo orgânico do qual a minha carcaça faz parte. Mas também é depret perceber que, no intervalo de uma ou duas gerações, plantar um pé de tomate seja motivo de assombro ou fracasso. Árvores sintáticas podem ser úteis, mas também quero plantar tomate.

sábado, 15 de outubro de 2016

Amigos Químicos

Kemialliset Ystävät é o nome de um projeto musical do finlandês Jan Anderzén, que, com colaboradores, compõe e grava experimentalismos desde 1995. Eu tinha algumas músicas perdidas numa pasta de música muy criativamente intitulada "folk" há aproximadamente 10 anos, mas nunca tinha parado pra ouvir. Botava pra tocar uma vez ou outra mas tirava porque a sonoridade provavelmente não correspondia ao estado emocional em que eu me encontrava ou que desejava provocar, como se tivesse um simulador de emoções de Do Androids Dream of Electric Sheep? Mas últimas semanas eu passei ouvindo um disco mais recente deles, o Alas Rattoisaa Virtaa, lançado em 2014, que tem esta belíssima capa e pode ser ouvido no Spotify ou no Bandcamp da gravadora.


O fato é que tive vários momentos proustianos com esse disco: me peguei devaneando sobre a natureza da música, das notas, dos timbres, da relação entre eles. Fiquei pensando no quanto determinadas frases melódicas que ouvimos pela primeira vez interagem com nosso aparato sensorial de modos únicos e imprevisíveis, sendo capazes, essas frases específicas, de gerar no aparato sensorial algumas reações também específicas de prazer, defesa, curiosidade, nostalgia, mas principalmente o prazer da surpresa do primeiro contato de algo bastante efêmero no tempo, que se dissolve em poucos segundos, deixando nos neurônios uma sensação de que foram tocados por algo fluido, aerado, fugidio, como um vento que nos deixa no braço um arrepio.

Uma propriedade que sempre me chamou a atenção nas poucas coisas que ouvi de música erudita foi que elas não se apoiavam tão diretamente em repetição, mas buscavam explorar uma diversidade de texturas e estados emocionais, geralmente com transições longas de um estado para outro, às vezes alcançando um retorno ou resolução de conflito, como numa narrativa, mas proporcionando alguns desses prazeres efêmeros de poucos segundos que se dissolvem e deixam na memória um retrogosto distinto. Raras vezes tive paciência pra sentar e ouvir música erudita, e lamento minha ignorância nesse universo, pois parece riquíssimo. Mas divago, não é disso que quero falar.

Nos Ystävätt não há quase nada de clássico, erudito, tradicional — pelo menos não na superfície. Se levei 10 anos pra ouvir, agora naturalmente vou ter dificuldade pra descrever. Mas me dou a liberdade de definir a música como uma demência muito deliciosa. É uma colagem eletrônica de uma miríade de timbres e linhas melódicas e rítmicas que vão se insinuando de forma bem caótica nos poucos minutos que compõem cada faixa. Sendo um trabalho experimental, tem pouca fórmula aparente. Como estamos na internet, vou me dar a liberdade de botar aqui um vídeo ("Arkistorotat") e tentar uma descrição ao mesmo tempo e pra imaginar que algumas dessas observações possam ser generalizadas como descrição do que fazem (ou do que podem fazer) os Amigos Químicos (segundo o Google Translate, essa é a tradução de "Kemialliset Ystävät").



Começa a música e somos jogados numa sequência de frases rápidas que lembram melodias de videogame em loop, acompanhadas por um bumbo. Esses timbres que parecem videogames ou brinquedos eletrônicos em geral são muito frequentes no álbum, no projeto, no folk finlandês contemporâneo e no folk estranho em geral. Vários artistas inclusive gravam os sons dos próprios brinquedos de infância e usam esses sons nas composições, o que é um negócio bem bonito e cheio de potencial pra significados intimistas e um pouco de transtorno compartilhado.

Então, em menos de quinze segundos, surgem na música palmas, um jogral de adolescentes, uma cuíca?, um chocalho, um flautim serpentinado, um theremin tagarela, um órgão, um baixo e outros elementos sintetizados que vão se pronunciando e se ocultando em intervalos pouco fixos mas que dão a sensação de uma ciranda com alguma regularidade em torno de um mastro imaginário (as crianças? o bumbo? outra coisa? ou nenhum centro, com cada um girando só?).

Aos 70 segundos (1:10 no vídeo), surgem umas cornetas desafinadas que parecem propor um tema meio épico para a peça; sintetizadores compram e repetem a ideia, e quem está no canto da sala até chega a preparar um campo harmônico pra esse tema. Mas logo o pessoal parece desistir e não concordar com a proposta épica talvez por julgá-la sisuda ou pomposa demais. Entra uma breve comitiva de marimbas, crianças brincando de lutinha e sanfonas com movimentos dissonantes, como se testando um movimento ou conferindo a afinação. Esse interlúdio informal dura 40 segundos e é seguido pela volta dos protoépicos e desafinados sintetizadores cornetoides, que por fim parecem convencer os convivas a executar brevemente o tema marchante numa conversa rápida com theremin e companhia. Tudo se abafa abruptamente e se encolhe às palmas e por fim acaba num um theremin mais grave, lúgubre, que no álbum deságua num tema bem mais geométrico e em tons menores.

As outras peças são bem diferentes e seria torturante tentar descrever mais do que uma faixa. Mas está sempre lá o elemento de surpresa, de você não saber o que pode aparecer na esquina dos próximos dez segundos — e como, e por que, e de onde, e com quem, e que diabo significa aquilo e é claro que significa muita coisa mas também não significa nada e caramba tem um sapo coaxando aqui? Às vezes algumas frases se repetem e os elementos delas parecem concordar numa dança gramatical transitória, efêmera, que dura assim uns três ou quatro segundos e logo se dissolve no caos e segue o baile. É muita física quântica.

Ouve aí.


O mar

Tive o sonho mais estranho essa noite. Nele eu estava à beira-mar numa cidade que não é a minha cidade atual. Estava no calçadão ao lado de ...