Este é um blog pessoal para registro de fatos cotidianos, descobertas internéticas, reflexões aleatórias, sonhos estranhos, memórias singelas e, com sorte, pequenos trabalhos de ficção. Não contém ironia.
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quinta-feira, 24 de agosto de 2017
Exortação
Sonhei com a minha filha Irina: tinha nascido há poucos dias mas já era um bebê bem gordo e grande que engatinhava pela mesa da cozinha e tentava tocar a a cafeteira Moka, que felizmente já estava fria. Com poucos dias já balbuciava: tinha uma voz grave e, embora mal pudesse diferenciar os pares básicos de fonemas, formava frases, sempre em resposta a alguma coisa que eu tinha feito ou deixado de fazer. Por fim me olhava com a cabeça enorme e os olhos austeros e me exortava: "Se você estivesse prestando atenção, agora já saberia".
Dentes
Pouco depois de tirar o aparelho ortodôntico, uma jovem dormiu sem a contenção e acordou com a mordida desconjuntada: os dentes retorcidos como se por um abridor de lata. Era-lhe quase impossível falar. Tentou usar os dedos para recolocar os dentes no lugar, e eles, os dentes, pareciam voltar a uma posição mais isonômica. A jovem, contudo, fez força demais e acabou quebrando oito dos seus dentes, que se desprenderam de modo indolor da gengiva inferior e da gengiva superior. Os dentes caíram no chão do banheiro. A jovem os recolheu com uma vassourinha, os colocou no bolso da calça de moletom e saiu de casa, numa vila chuvosa de altos pinheiros, à procura de algum dentista que pudesse reimplantar-lhe os dentes. Mas era cedo ainda, umas seis da manhã, e por isso não encontrou pessoa alguma apta a efetuar o reparo dentário.
sábado, 2 de janeiro de 2016
Adeus, Joe
Sonhei que o guitarrista Joe Satriani estava de passagem pelo Brasil. Por algum motivo, ele acabava no meio de uma manifestação dizendo coisas que desagradavam aos manifestantes em geral. Quando disse algo muito desagradável, levou um chute na boca que o fez perder dentes, sangrar muito e desmaiar. A partir daí, os manifestantes passaram a desferir chutes e socos no Joe, que logo acabou despedaçado. Por fim, alguém segurou a cabeça dele pelas orelhas e a arremessou contra uma parede chapiscada. Isso me foi relatado por um sujeito que dizia ter testemunhado a agressão; ele me contava ainda que, em resposta, o Ministro da Justiça anunciara a proibição de algo chamado Deso do Dez. O sujeito foi embora e eu fiquei na calçada de casa balbuciando “Porra mas que barbaridade inacreditável quantas tardes passei aos treze anos ouvindo e tirando Love Thing, que descanse em paz pois jamais será esquecido” e chorava enquanto catava na sarjeta uma bituca recém-desprezada por um transeunte e começava a fumar o tabaquinho da morte.
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