Este é um blog pessoal para registro de fatos cotidianos, descobertas internéticas, reflexões aleatórias, sonhos estranhos, memórias singelas e, com sorte, pequenos trabalhos de ficção. Não contém ironia.
sábado, 16 de setembro de 2017
Morte dos manjericões que não têm me servido de alimento
Já quase morreram os pés de manjericão. Dos quatro que vieram para o novo apartamento no começo do ano, três sobreviveram, depois de se conformarem com as novas condições. Pegam pouco sol porque na sacada quase não bate sol. O posicionamento do apartamento é todo errado, e mesmo as pessoas só podem pegar sol às beiras de algumas janelas em curtos intervalos das manhãs não nubladas. Uma pimenteira morreu em menos de um mês de endereço novo, mas os pés de manjericão persistem, e já estão aqui há seis meses. De uns tempos pra cá, parei de regá-los diariamente, às vezes passo três ou quatro dias sem regá-los, e talvez até mais tempo, e só faço a rega quando, sentado no sofá, geralmente lendo, com sono e bem alimentado, levanto meus olhos do texto e, ao olhar para a sacada, me comovo ao ver as folhinhas murchas penduradas dos galhinhos tortos e os muitos restos de vegetação espalhados pelo piso. O problema é que não tenho mais uma rotina de cuidado com eles. É muita coisa para cultivar ao mesmo tempo. E também porque tenho usado menos o ar condicionado da sala, cuja mangueira de drenagem alimentava um regador dos bem grandes que fica no canto da sacada, garantindo sempre uma água de fácil distribuição para as plantas, mas também propícia ao mosquito da dengue, enfim. Então agora uma parte relativamente grande da dificuldade é que, para regar as plantas, preciso primeiro pegar água na cozinha, e a distância da cozinha é a maior do que a distância entre a cozinha e a sacada do apartamento em que foram plantados os manjericões e toda a vizinhança leguminosa, e quando me ocorre de ver os manjericões e não estar sentado é porque estou fazendo alguma coisa que deveria ter sido feita há algumas horas e já atrasa outras tarefas que com determinação eu consigo fazer ainda no mesmo dia. O manjericão ao morrer vai perdendo as folhas, que murcham, amarelam e rareiam ao mesmo tempo em que, nas pontas dos galhos, surgem filas de flores e sementes protegidas por bulbos muito verdes e aveludados, que parecem sugar toda a vitalidade que resta da planta moribunda. E eu, o artífice do manjericão, dou-lhe de beber, corto as filas de sementes e flores e espero com isso dar-lhe sobrevida e talvez algum alívio. As sementes e flores eu uso de adubo aos pés da planta, e às vezes receio que haja neste gesto algo de canibal e especialmente sádico.
quinta-feira, 24 de agosto de 2017
Exortação
Sonhei com a minha filha Irina: tinha nascido há poucos dias mas já era um bebê bem gordo e grande que engatinhava pela mesa da cozinha e tentava tocar a a cafeteira Moka, que felizmente já estava fria. Com poucos dias já balbuciava: tinha uma voz grave e, embora mal pudesse diferenciar os pares básicos de fonemas, formava frases, sempre em resposta a alguma coisa que eu tinha feito ou deixado de fazer. Por fim me olhava com a cabeça enorme e os olhos austeros e me exortava: "Se você estivesse prestando atenção, agora já saberia".
Dentes
Pouco depois de tirar o aparelho ortodôntico, uma jovem dormiu sem a contenção e acordou com a mordida desconjuntada: os dentes retorcidos como se por um abridor de lata. Era-lhe quase impossível falar. Tentou usar os dedos para recolocar os dentes no lugar, e eles, os dentes, pareciam voltar a uma posição mais isonômica. A jovem, contudo, fez força demais e acabou quebrando oito dos seus dentes, que se desprenderam de modo indolor da gengiva inferior e da gengiva superior. Os dentes caíram no chão do banheiro. A jovem os recolheu com uma vassourinha, os colocou no bolso da calça de moletom e saiu de casa, numa vila chuvosa de altos pinheiros, à procura de algum dentista que pudesse reimplantar-lhe os dentes. Mas era cedo ainda, umas seis da manhã, e por isso não encontrou pessoa alguma apta a efetuar o reparo dentário.
terça-feira, 27 de junho de 2017
O Tigre
(“The Tyger”, de William Blake. 1794.)
Tigre tigre, que arde e brilha
Em noite funda, negra trilha
Que olho, eterna maestria
Fez tal terrível simetria?
Que fosso ou limbo estelar
Fundiu em chamas teu olhar?
E com que asas se lançava
O que audaz fogo tomava?
Quem com traço tão perfeito
Fez as fibras do teu peito?
E quando o sangue então correu
Que feros pés e mãos ferveu?
E que martelo, que correia,
Que forno a mente incendeia?
Em que bigorna tanto horror
Bate as medidas do terror?
Quando o cosmo todo espanto
O céu cobriu de lança e pranto
Sorriu ele, ao ver-te inteiro?
Fez-te o mesmo do cordeiro?
Tigre tigre, que arde e brilha
Em noite funda, negra trilha
Que olho ou eterna maestria
Ousou terrível simetria?
Tigre tigre, que arde e brilha
Em noite funda, negra trilha
Que olho, eterna maestria
Fez tal terrível simetria?
Que fosso ou limbo estelar
Fundiu em chamas teu olhar?
E com que asas se lançava
O que audaz fogo tomava?
Quem com traço tão perfeito
Fez as fibras do teu peito?
E quando o sangue então correu
Que feros pés e mãos ferveu?
E que martelo, que correia,
Que forno a mente incendeia?
Em que bigorna tanto horror
Bate as medidas do terror?
Quando o cosmo todo espanto
O céu cobriu de lança e pranto
Sorriu ele, ao ver-te inteiro?
Fez-te o mesmo do cordeiro?
Tigre tigre, que arde e brilha
Em noite funda, negra trilha
Que olho ou eterna maestria
Ousou terrível simetria?
segunda-feira, 26 de junho de 2017
Todo animal é um esteta
Um leitor desavisado vai se decepcionar com At the Mountains of Madness. O transtorno não vem do que se encontra, mas das faltas. O leitor regular vai ficar o tempo todo se perguntando "O que ele viu? O que aconteceu? Quem são esses bichão?". Algo está sempre para acontecer. O horror deve vir da percepção crescente de que a Terra talvez seja mais velha, fria, feia e perversa do que as paisagens conhecidas. A Terra tem recantos obscuros que assim permaneceram por milênios simplesmente porque ninguém estava olhando: basta prestar atenção a um objeto para que ele comece a se transformar. O mais grosseiro dos seres humanos ainda é, enquanto baba, peida e arrota, um delicado jardineiro. Todo animal é um esteta.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Plantar é muito bom
Aliás, plantar é muito bom. Não sei no campo, mas em apartamento, assim na sombra e com água potável do lado é uma delícia. Botar mão na terra, encardir a unha que depois vai dar trabalho pra limpar, fazer bolinha de húmus com folha em decomposição, regar muda, transplantar muda, salvar muda que caiu do berçário, ter delírio e devaneio de autossuficiência e de plantar num hectare todo. O único problema é que, depois, qualquer outro trabalho parece muito desinteressante.
Aprendizado hortelão
Umas perdas com aprendizados na horta da sacada. As beterrabas e as cenouras não foram pra frente. Provavelmente uma combinação de solo inadequado com falta de espaço e de sol. Era só um experimento pra ver se dava alguma coisa com pouco espaço e pouco sol. Não deu. Talvez com muita irrigação e adubação e sol pleno eu pudesse conseguir umas cenourinhas como as que vendem na feira de orgânicos. Os tomates Carolina também iam mal: tinham muito espaço mas pouco sol. Então os transplantei para a jardineira em que eu tentava cultivar minibeterrabas — pequena e estreita para caber no parapeito onde tenho algum sol pela manhã. Vou tentar cultivá-los como rasteiros, mesmo, sem suporte de bambu:
E para uma outra jardineira eu transplantei dois pés de manjericão e, no meio, um pé de tomate. Já é quase uma pizza:
No vaso à esquerda tem cebolinha, à direita tem outro manjericão, que pode ser Gennaro ou alfavaca (minha nomenclatura grosseira pra folha grande e folha pequena). Ainda não dá pra diferenciar pelas folhas nesse tamanho. No berçário eu tinha plantado duas alfavacas e dois Gennaro, mas só de uma das espécies vingaram duas sementes.
Não sei se nada disso vai funcionar. Não sei se é prudente botar um tomate no meio dos manjericão — provavelmente não, mesmo que eu pretenda botar ali um suporte de bambu para as primeiras fases. Eu poderia encontrar essas informações rapidamente numa busca na internet ou num livro especializado, mas estou medindo outras coisas ainda, como irrigação, adubação, quantidade de sol, espaço, etc. Não é um experimento comercial e nem dependo disso pra comer, então não tenho muito a perder além da paciência. Quero ver, por exemplo, se a muda do tomate chega a crescer um pouco mais recebendo um pouco mais de sol, estando no parapeito e não no chão. Tenho uma muda de controle num vaso no chão, que vou continuar irrigando pra depois poder comparar com a muda do parapeito.
Aprender essas coisas na experimentação e sem ler nada nem conversar com quase ninguém nem ter espaço nem muito tempo é trabalhar numa ignorância mais profunda que tentar reinventar a roda; é meio que tentar reinventar a agricultura (que já pode ter sido uma má ideia da primeira vez) com a mentalidade de uma criança de jardim da infância: EU quero mexer na terra, EU quero semear, EU quero ver desse outro jeito, EU EU EU.
A vantagem é que você se sente um pouquinho, bem pouquinho, como um Homem Primitivo, totalmente intrigado por coisas bem simples da natureza, como solo, luz, água, vento, noite, insetos, fungos, calor. É lindo perceber a palpabilidade desse mundo orgânico do qual a minha carcaça faz parte. Mas também é depret perceber que, no intervalo de uma ou duas gerações, plantar um pé de tomate seja motivo de assombro ou fracasso. Árvores sintáticas podem ser úteis, mas também quero plantar tomate.
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